A dor nas costas, que inclui a dor localizada na região cervical e a dor na região inferior da coluna (lombalgia) , é uma das queixas mais frequentes na população adulta e uma das principais causas de absentismo laboral. Apesar da sua elevada prevalência, continua envolta em desinformação, exageros e mitos, que muitas vezes agravam o problema em vez de contribuírem para uma gestão adequada.

Esta desinformação não afeta apenas a população em geral, mas também alguns setores profissionais da saúde menos atentos ou especializados, o que pode amplificar a disseminação de conselhos pouco eficazes ou até prejudiciais.

As doenças musculoesqueléticas degenerativas, nas quais a coluna vertebral é uma das estruturas mais afetadas, assumem atualmente um papel central nos problemas de saúde dos países industrializados. Estima-se que 70 a 80% da população terá pelo menos um episódio significativo de lombalgia ao longo da vida.

A coluna vertebral constitui o pilar estrutural do corpo humano, sendo solicitada continuamente nas posições de pé, sentado ou deitado. Ao longo da vida, está naturalmente sujeita ao envelhecimento e a fenómenos degenerativos. No entanto, apesar de este processo ser natural, não ocorre de forma igual em todas as pessoas, estando intimamente relacionado com a forma como envelhecemos e, sobretudo, com os cuidados globais de saúde adotados ao longo da vida.

Curiosamente, os grupos mais afetados pela lombalgia não são os mais idosos, mas sim os indivíduos entre os 40 e os 60 anos, verificando-se ainda uma tendência crescente para o aparecimento de dor lombar em idades cada vez mais jovens.

Porque afeta a lombalgia cada vez mais os jovens?

A resposta é multifatorial.

Numa perspetiva histórica e social, o avanço tecnológico e económico iniciado com a Revolução Industrial trouxe benefícios inegáveis, mas também novos desafios. A automatização e mecanização do trabalho reduziram a exposição a esforços físicos extremos; contudo, contribuíram para o aumento do sedentarismo, resultando numa população com menor capacidade muscular para responder às exigências do quotidiano e, consequentemente, com menor proteção das estruturas esqueléticas.

Paralelamente, a facilidade de acesso a alimentos — sobretudo produtos ultraprocessados e de baixo valor nutricional — conduziu a um aumento significativo do excesso de peso e da obesidade, fenómeno que atualmente assume proporções de problema de saúde pública, afetando inclusive a população pediátrica.

Estes fatores, associados a estilos de vida pouco ativos (trabalhos cada vez mais sedentários, Tecnologia e digitalização do lazer, Dependência automóvel, cultura de conviniência, etc), têm consequências negativas não apenas para o sistema musculoesquelético, mas também para múltiplos órgãos e sistemas.

As chamadas doenças silenciosas do século XXI — como a hipertensão arterial, a diabetes, a hipercolesterolemia e a obesidade (síndrome metabólico) — estão intimamente relacionadas com estilos de vida, hábitos alimentares e fatores psicológicos e sociais. Estes mesmos fatores estão frequentemente presentes em indivíduos com lombalgia crónica, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada, informada e preventiva.

Fatores de risco

O risco associado à dor lombar envolve fatores não controláveis, como a idade e o género feminino. No entanto, os fatores com maior impacto clínico são maioritariamente controláveis.

A obesidade pode ser prevenida através de uma alimentação equilibrada e da prática regular de atividade física. O reforço muscular — essencial para a estabilidade e proteção da coluna — depende igualmente de exercício físico adequado, associado a uma nutrição correta.

Um estilo de vida sedentário, frequentemente associado a fatores psicológicos e sociais negativos, bem como o consumo de substâncias aditivas, pode e deve ser combatido com a adoção de hábitos saudáveis. A atividade física regular e uma alimentação equilibrada contribuem ainda para a melhoria do stress crónico, ansiedade, depressão, qualidade do sono e satisfação pessoal, fatores intimamente relacionados com a lombalgia crónica.

Nesta perspetiva, identificamos um denominador comum frequentemente referido como essencial, mas paradoxalmente o mais ignorado pela população:

Estilo de vida saudável e atividade física regular.

Não há segredos nem milagres nas metodologias médicas ou cirúrgicas. Sem estes dois pilares devidamente otimizados, os resultados terapêuticos — médicos e cirúrgicos, quando necessários — ficam comprometidos. Se a base não for sólida, a estrutura acabará por ruir em alguma fase da vida.

Riscos reais da dor de costas

Quando não é devidamente acompanhada, sobretudo nos casos crónicos, a dor de costas pode ter impactos significativos:

  • Limitação funcional, dificultando tarefas simples do dia a dia, como caminhar, sentar ou dormir;
  • Aumento do sedentarismo, muitas vezes motivado pelo medo da dor, levando à perda de força muscular e agravamento do quadro clínico;
  • Impacto psicológico, incluindo ansiedade, frustração e, em alguns casos, depressão;
  • Cronificação da dor, quando episódios agudos mal geridos evoluem para dor persistente;
  • Dependência excessiva de medicação, nomeadamente analgésicos e anti-inflamatórios, com riscos associados ao uso prolongado.

A dor de costas raramente é apenas um problema “das costas”; envolve fatores físicos, emocionais, posturais e sociais.

Mitos urbanos mais comuns

Apesar da evidência científica, persistem vários mitos:

“Quem tem lombalgia deve evitar movimento.”
Mito. O repouso prolongado tende a agravar a dor. O movimento orientado e o exercício adequado são, na maioria dos casos, parte essencial do tratamento.

“Quem tem lombalgia o melhor é natação ou hidroginástica.”
Mito. Estas modalidades não apresentam evidência superior a outras formas de atividade física. O mais importante é a prática regular de exercício, adaptada às necessidades clínicas, preferências individuais e bem-estar físico, com planos estruturados e progressivos.

“É sempre sinal de algo grave.”
Mito. A maioria das lombalgias não está associada a patologia grave.

“A causa é sempre uma hérnia.”
Mito. Muitas pessoas apresentam hérnias discais assintomáticas, e muitas lombalgias ocorrem sem qualquer hérnia.

“Más posturas são a única causa.”
Mito. A postura é apenas um dos fatores. Stress, sono, condição física e carga emocional influenciam significativamente a dor.

“Só a cirurgia resolve.”

Mito. A maioria dos casos melhora com tratamento conservador: exercício, fisioterapia, educação e mudanças no estilo de vida.

“Os tratamentos cirúrgicos têm riscos elevados (por exemplo, ‘há risco de ficar numa cadeira de rodas’).”
Mito. A maioria das opções cirúrgicas atualmente disponíveis apresenta risco cirúrgico muito baixo, com baixo grau de invasividade e recuperação rápida.


O risco neurológico existe, como em qualquer procedimento cirúrgico, mas é muito reduzido. Não há risco realista de défices neurológicos graves, como ficar numa cadeira de rodas, quando a cirurgia é corretamente indicada e realizada por equipas experientes.

Compreender a dor de costas de forma realista é fundamental para uma gestão eficaz. Informar-se, combater mitos e adotar uma abordagem ativa são passos essenciais para reduzir o impacto da dor e melhorar a qualidade de vida. A dor de costas não é sinal de fraqueza nem uma sentença inevitável — é uma condição comum que exige conhecimento, acompanhamento e cuidado continuado.

Artigo de Opinião de Tiago Lima, Assistente Graduado em Neurocirurgia, com pós-graduação em Cirurgia da Coluna e pós-graduação em Medicina da Dor. Desenvolve a sua atividade clínica com enfoque no tratamento cirúrgico e multidisciplinar da patologia da coluna vertebral e no controlo da dor. Exerce atividade profissional, no Grupo SANFIL em Coimbra, Hospital da Lapa no Porto e na ULS Gaia e Espinho.